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A TV de lá e o Brasil de cá



Nos tempos modernos, a evolução tecnológica permite a qualquer cidadão do mundo acessar equipamentos que, além de facilitar a vida, transformam a informação instantânea em algo praticamente banal. Para um jovem de 40 anos, a proliferação de ipod’s, notebooks, mp5 player’s e celulares impressiona não apenas pela quantidade, mas pela velocidade da transformação ocorrida nos últimos anos. Quem tem 40 anos não tinha a menor idéia a respeito dessa parafernália eletrônica quando tinha 20 anos. Afinal, apesar de 1988 estar bem ali, a reserva de mercado e outros ‘’monstros’’ criados pelo nosso inventivo sistema econômico impediram que a sociedade brasileira tivesse acesso a esses bens antes da década de 90.

Apesar de toda essa evolução, é inegável que a televisão continua tendo uma importância indiscutível para a população brasileira. Mesmo aqueles que possuem ou têm acesso às novíssimas invenções do moderno mundo eletrônico, em algum momento do seu dia dedicam um instante de atenção à programação televisiva, seja através dos canais abertos ou das Tv’s à cabo, seja na cidade ou seja no campo.

Nesse aspecto, não se pode desprezar a importância que a televisão tem para as populações de baixa renda ou aquelas que ocupam os lugares mais remotos e distantes do território brasileiro. Sim! Apesar de não haver muita atenção para esse detalhe, deve ser ressaltado esse poder de penetração da televisão junto aos ribeirinhos, índios, camponeses, pescadores, assentados, garimpeiros e outros moradores distantes.

Quem já teve oportunidade de sobrevoar qualquer região habitada do Estado do Amapá, ou mesmo viajar de barco ou por via rodoviária em percurso local ou interestadual, se prestou bem atenção deve ter observado que em todos esses lugares, sempre que há algum tipo de geração de energia, existe, no mínimo, uma antena parabólica a ligar o Brasil de lá ao Brasil de cá.

Apesar da consolidação cada vez mais real das mídias alternativas, a televisão jamais poderá ter a sua importância diminuída, muito menos em relação à sua utilização como única opção de lazer para os menos aquinhoados. Prova disso é a grande repercussão da chegada da TV digital ao Brasil (o “de lá”). No entanto, torna-se cada vez mais necessária uma reflexão a respeito da influência que a televisão impõe aos menos esclarecidos.

Recentemente foi muito noticiado na imprensa nacional o debate a respeito da polêmica classificação indicativa, que estabeleceria regras de aviso sobre a programação exibida na TV. No calor dessa discussão, chamou atenção o fato de, ao ser convocado para dar sua contribuição a respeito do assunto na Câmara dos Deputados, o escritor de novelas Manoel Carlos ter alegado que a TV apenas reproduz o que a sociedade faz, e não o contrário. Será mesmo? Será que os produtores de televisão, por exemplo, têm o direito de transmitir o que bem entenderem, para onde entenderem?

Mas, e o Brasil de cá, em que é afetado?  Na verdade, o que se observa é a perda de uma excelente oportunidade para se discutir outros aspectos da influência da televisão na vida das pessoas, principalmente quando essas pessoas são desinformadas ou despreparadas para lidar com a cultura televisiva. Não se trata de ‘’proteger’’ o cidadão brasileiro da televisão. O que se observa é a necessidade da televisão respeitar as diferenças culturais, sociais e ambientais existentes nas diferentes regiões do País.

Nesse contexto, lamenta-se que a mobilização de vários representantes da sociedade civil e do poder público do país inteiro, tenha resultado apenas na definição de horários de programação de acordo com a faixa etária.  Não é possível que se aceite sem questionamento algum o fato de diariamente adentrar aos lares longínquos, desde o horário da tarde até a última novela, o linguajar e a cultura de Ipanema, Copacabana e outros points do sul maravilha.

Deve reconhecer-se que uma família humilde do Cajarí ou da Aldeia do Manga dificilmente terá como proteger (e aqui é proteger mesmo) seus filhos da influência imposta pela televisão. Afinal, não é fácil mesmo explicar para um jovem do interior do nosso estado que os hábitos de consumo apresentados na TV não devem (ou não podem) ser seguidos, posto que, inadequados para a realidade local. Que as roupas, sapatos e carros ali utilizados, apenas compõem figurino e cenário das obras apresentadas ( e que muitas vezes sequer condizem com a realidade de 90% da população de lá), que o “carioquês” falado nas novelas nada tem a ver com o nosso jeito de falar, e que a competição consumista mostrada para todo o País retrata uma realidade distante da nossa (e, no mais das vezes,  até da deles).

Muitos podem não observar essa relação, mas talvez o viés mais importante da discussão tenha a ver com o tão propalado discurso da preservação sem compensação. As questões ambientais que hoje permeiam os debates intelectuais precisam considerar também esse fator: a televisão!!! A idéia é mostrar o quanto é difícil garantir a resignação de um povo com a política preservacionista quando, por outro lado, seus filhos sofrem uma verdadeira lavagem cerebral a favor do consumo. Para haver consumo é necessário haver produtos, havendo produtos, mister se faz a existência de dinheiro para adquiri-los, mas para se ter dinheiro (honestamente), é preciso ter trabalho, com emprego ou sem emprego, mas acesso à renda. Depreende-se, portanto, que a geração de renda decorrerá de uma política de desenvolvimento, que certamente levará a algum tipo de exploração e degradação (ainda que minimamente).

Dessa análise, resulta uma equação em que o resultado óbvio é a necessidade de inclusão de um povo no mercado de consumo, baseando-se na cultura estabelecida na consciência coletiva, principalmente através da televisão. Daí resultam duas possibilidades: ou se caminha no sentido de desenvolverem-se projetos econômicos que resultem na inclusão das pessoas no mercado de trabalho (com suas virtudes e defeitos, ainda que estes sejam amenizados pelos rigores da lei); ou se compensa o sacrifício ao qual a população teria que se submeter, visando a preservação ambiental total e a satisfação dos interesses dos degradadores do ambiente a nível nacional e mundial.

Alguns irão dizer que a televisão vive de audiência e precisa de lucro, porém, nesses casos, a eventual perda de receita seria compensada com o que hoje se consolidou chamar de responsabilidade social.

Longe de se propor solução para a questão, o momento é de ser buscada a ampliação do debate a respeito do assunto. Valorizar a programação local, aumentando o espaço de programas desenvolvidos aqui mesmo já seria um início. Produzir, pelo menos uma vez por ano, novelas cujo conteúdo seja baseado na cultura de outras regiões do País (as emissoras têm recursos para isso), seria uma evolução.
Acabar com as novelas? Não! Mas mostrar que há um mundo mais próximo da nossa realidade, contrabalançando a cultura enlatada, poderia ser um critério mais justo de entretenimento da população local. Quem sabe um dia???


Arnaldo Santos Filho
Professor e Advogado
Mestrando em Direito Ambiental e Políticas Públicas pela UNIFAP
(ariany.afilho@uol.com.br)