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Falar Tucuju
INTRODUÇÃO

O passatempo que começou durante os longos vôos e esperas em aeroportos, tem a pretensão de iniciar o resgate de uma maneira de falar e de retratar algumas histórias da cidade pacata como era Macapá nas décadas de 50,60 e 70. Desde a criação do Território Federal do Amapá em 1943, pessoas de vários cantos do Brasil migraram para este rincão formando este contínuo caldeirão cultural que se fundiu ao linguajar caboclo.

O retorno ao passado não muito distante, serve para matar a saudade de muitos e mostrar às novas e futuras gerações, como era o modo de falar e a vida nesta terra que todos aprenderam amar. A linguagem adotada foi a coloquial, mais simples possível, assim como é o amapaense.

Certamente é um trabalho incompleto e retrata a minha visão e interpretação dos fatos e palavras; contribuições serão bem vindas para que o trabalho seja mais abrangente, uma vez que a pesquisa foi feita de forma singular, resultado de muitas horas de conversas em resgate de uma memória perdida no tempo, entretanto, o carinho com que foi realizado, demonstra o amor que tenho por nossa cultura e por nossa terra; descobrindo o quanto é gostoso escrever sobre tema bastante interessante. Portanto divirtam-se.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus por ter dado o privilégio de vivenciar muitas das situações aqui retratadas; a Célia e Bruno que compreenderam o porque muitas horas de sumiço; as pessoas anônimas que contribuíram involuntariamente nas pesquisas durante as conversas informais realizadas nos quatro cantos da cidade; a Sônia e Lênio pela revisão e projeto gráfico.

Agradeço especialmente ao meu irmão e parceiro Fernando Canto, grande incentivador que acreditou desde o primeiro momento na realização deste trabalho. A todos meu muito obrigado.


CURRICULUM

João Nobre Lamarão, amapaense, nascido em 1960, é filho de Sebastião e Luzia Lamarão, pioneiros que chegaram ao antigo Território Federal do Amapá em fevereiro de 1948. Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Pará com Pós Graduação em Controladoria desempenha suas atividades na iniciativa privada.   Atua ativamente em instituições de classe e filantrópicas possuindo diversos trabalhos ligados a área social. Apaixonado pela cultura e tradições amapaenses, participa ativamente das manifestações culturais locais, possuindo vários artigos publicados em jornais de Macapá; entretanto, Falar Tucujú - Desde o Tempo do Ronca é sua primeira incursão na literatura propriamente dita buscando o resgate de parte de um tempo até certo ponto esquecido.

PREFÁCIO

Gilberto Pinheiro*

O estudo da evolução da linguagem é o estudo da evolução da cultura de um povo. Evolução não no sentido de melhoramento, mas de mudança, mutação. Para Saussure, a língua é viva, possui uma força intrínseca e caminhante com o homem em suas relações sociais e é um dos melhores espaços amostrais para que se entenda o mundo que cerca esse homem. Que melhor maneira então de perceber o passado cultural e antropológico de um povo se não através dos vocábulos criados em seu bojo? Através dos nomes que se dão às coisas? Jito, abestado, buiar, a modo, coroca, entre outras, são palavras criadas pelo nosso povo em seu cotidiano e que se incorporaram no linguajar. Entender seus significados é compreender também quem as criou, quem as repetiu e porque elas se perpetuaram na história.

Muito sequioso é o amapaense de saber sobre si, sobre sua memória. Por vezes sentimos essa região como que estática no tempo, mas não o é. Aqui, como em todo lugar, sua gente tem história. A Província dos Tucujus ou Tucujulândia, denominação oficialmente feita por D. João V, Rei de Portugal à nossa terra, passou por incontáveis mudanças sociais e políticas a ponto de hoje esta delimitação territorial constituir-se um estado federado ao Brasil. Destas mudanças e de como elas afetam a gente, o rastro que temos são o “falar” e o “chamar”. Saber por exemplo, porque o bairro atualmente conhecido como Santa Inês uma vez se chamou e ainda é conhecido por muitos das antigas como Vacaria, é um mergulho nos processos de urbanização pelos quais passou Macapá.

Pela sua paixão regional, meu caro amigo Lamarão, caboco de nossa querida Favela, resolveu agraciar-nos com esta arenga, um dicionário de termos do Amapá. Uma pista valiosa da pujante cultura local, da identidade regional e do inenarrável sentimento de pertença do povo amapaense.


*Desembargador do Estado do Amapá.



A MEMÓRIA ACESA


Fernando Canto

Os mais de quatrocentos verbetes do falar amapaense aqui coletados pelo engenheiro civil João Lamarão não tem apenas a conotação explicativa dos vocábulos. Eles trazem em si mesmo a perpetuação mnemônica dos símbolos que a sua geração conheceu e usou no seu cotidiano, de forma coloquial, mas comunicativa.

Embora o trabalho aqui apresentado não tenha pretensões léxicas trata-se de um conjunto de valiosas informações de cunho cultural que o autor sabiamente soube resgatar através de conversas informais com os amigos e habitantes da velha Macapá. É um trabalho feito com determinação e arrojo, ainda que o próprio autor reconheça sua limitação.

Ao leitor desavisado fica a advertência de que os termos utilizados neste pequeno glossário são decorrentes da necessidade de preencher vazios, senão abismos, na cultura local, onde cada palavra traz um significado tangente e uma saborosa história. São histórias “do tempo do ronca”, que acendem a memória e sustentam flagrantemente um amor explícito pelas coisas de nossa terra.